quarta-feira, 8 de julho de 2009

Artigo p/ Propmark "Impressões sobre Cyber"


Pude acompanhar de perto o que rolou em Cannes esse ano e queria dividir aqui algumas impressões sobre Cyber, categoria em que numericamente o Brasil teve seu pior desempenho nos últimos tempos. Foi muito difícil arrancar shortlists para o Brasil nesse ano, tivemos somente 8, e leão foi mais suado ainda, apenas 2, 1 de prata para a Sun MRM e um de bronze para a DM9. Coisas como o viral do Bruce Lee, a Corrida de Screensavers da Intel, o Cartão de Natal da AKQA e Whooper Virgins não saíram do Shortlist. Ou como o belo case T-Racer, criado pela AgenciaClick para a Fiat, que não entrou no Shortlist.

Enfim, foi absurdamente competitiva essa categoria esse ano, agências brasileiras consagradas e respeitadas mundialmente em Cyber como a Gringo, a Thompson, a Mccann, a AgenciaClick e a própria Wunderman, ficaram de fora até do Shortlist, o que é uma pena.

Quando as pessoas me perguntavam se eu não estava feliz por a DM9 ter sido a agência mais premiada em Cyber do país, minha resposta era sim e não. Sim por termos de fato conseguido metade dos shortlists brasileiros (4) e termos saído de lá com um leão, somando 6 pontos. Mas, não, por achar que o desempenho do nosso mercado de internet como um todo, inclusive o da própria DM9, não reflete o potencial criativo das nossas agências e profissionais. Acho que devemos entender essa queda de rendimento não como uma catástrofe, mas como uma oportunidade de aprendizado, para compreender o que mudou no cenário mundial e correr atrás pra virar o jogo pro Brasil nos próximos anos. E é aí que eu queria entrar: nos aprendizados.

Um deles é que nenhuma campanha de internet sobrevive no Palais sem uma estratégia de divulgação bem feita. Todos os ouros de Cyber desse ano foram para cases que os jurados já conheciam antes de chegar lá. São cases que em algum momento do último ano, viraram pauta do mundo em blogs, redes sociais e sites especializados. Isso pesou muito na hora de soltar os leões.

O segundo aprendizado é sobre otimização das inscrições. Se você tem uma idéia boa que passou pela internet, não considere apenas a categoria Cyber na hora de inscrever. Coloque ela em mídia, em design, press, marketing direto, filme. A mesma idéia pode ganhar um ouro em uma e não sair do shortlist em outra. Ou ganhar 3 Gps em categorias distintas, como o case do Melhor Job do Mundo. Sim, é fato, o digital tomou conta do festival, quase todas as palestras ninistradas em Cannes eram sobre algum tema relacionado ao digital. E isso valeu também para a premiação, o GP de Filme, por exemplo, que é a categoria mais tradicional do festival, foi dado para um site.

E por fim, o último aprendizado, que é menos novidade que os outros, é com relação à qualidade e grandiosidade de produção dos trabalhos. As peças premiadas têm produções impecáveis e alguns leões inclusive são definidos pela qualidade e gigantismo da produção. Cabe ao Brasil equilibrar melhor os valores entre mídia e produção e entender que uma boa idéia muito bem produzida receberá bastante mídia espontânea, o que compensará uma possível redução dos investimentos de mídia em prol de seu acabamento final.

Sobre esses aprendizados, conversei bastante com o Eco, nosso jurado esse ano. Fomos muito bem representados por ele lá, ele fez o possível para defender os cases brasileiros, mas o fato é que tinha muita coisa boa na disputa.

De maneira geral as coisas premiadas eram muito boas, gosto de todos os ouros, gosto do shortlist apesar de sentir falta de algumas peças, mas particularmente, não gostei muito dos GPs. Com exceção do Melhor Job do Mundo, que eu adoro, acho os dois outros GPs, Fiat Eco Drive e Batman Why so Serious? bem discutíveis.

Ambos são bacanas, merecem o ouro, mas acho que talvez eles careçam um pouco de originalidade. Pra mim, o GP tem que sinalizar uma forma diferente de fazer as coisas, um caminho novo que encha os olhos da indústria, que reinvente o produto que entregamos diariamente a nossos clientes. E aos meus olhos, o Fiat Eco Drive é um raciocínio bem similar ao do Nike Plus, só que aplicado à indústria automobilística. É legal, passa uma mensagem positiva, mas não acho tão inovador. Eu, particularmente, teria dado o GP dessa categoria ao Whooper Sacrifice, que apesar de não passar uma mensagem politicamente correta (troque seus amigos por um hambúrguer), mudou pra sempre a forma da propaganda pensar as redes sociais. É maluco, diferente, ousado e teve uma adesão espontânea gigantesca, mexendo de verdade com as pessoas que participaram.

Por fim, sobre o Batman Why so Serious?, é também uma ação muito legal, mobilizou milhares de pessoas mas não deixa de ser mais um Arg. Ao meu ver está muito dentro de uma fórmula pra ter o peso de um Grand Prix, apesar de ter sido brilhantemente executado. Mas tudo isso, repito é apenas minha opinião, de qualquer forma estão todos de parabéns por terem chegado lá e são cases que eu daria tudo para assinar. ; )

Bom é isso. Espero ter ajudado a esclarecer um pouco do que rolou, talvez o próximo passo seja absorver esses aprendizados e nos unirmos para virar o jogo no ano que vem. Talento nós temos, e muito. A disputa ficou bem mais difícil, mas se conseguirmos cuidar de todo o resto (produção, divulgação e inteligência de inscrição) aí sim o nosso talento criativo, que é mundialmente reconhecido, vai voltar a fazer a diferença. Bola pra frente!

domingo, 17 de maio de 2009

O que rolou no Mouse Awards 2009

Tive a honra de ser o representante do Brasil no júri do Mouse Awards esse ano, prêmio mundial de propaganda online da Microsoft, julgado em Londres. E agora que todos os prêmios foram divulgados, dá pra comentar um pouco do que rolou por lá. Foi uma experiência bem bacana, um júri de prima, alguns trabalhos duca e, Deus é pai, Londres com Sol.

Logo de cara o Simon, presidente do júri e DC da Poke, implementou umas regrinhas pra agilizar a bagaça. Primeiro aprendizado, meu e de quem mais botar fé: esqueçam o Tetris, o Space Invaders, o Pacman ou qualquer outro gamezinho retrô que possa ser subvertido para vender um conceito.

Esses games, é fato, costumam acumular energias paracinéticas nas profundezas das caixas de Atari e parecem ter encontrado um canal de fácil materialização em prêmios de propaganda. Tem de monte, na buena, já deu...

Outra interação recorrente que não rola mais é aquela de descortinar. Aquela, dos livrinhos que viram a página, do catálogo de produtos que seu cliente achava massa 4 aos atrás. Clássica! Pode rasgar também essa interação de sua lista. Era batata: pintava um Pitfall ou livrinho na tela e já se ouvia um neeeeext. Virou meio que regra lá, mas se você achar uma idéia boa a ponto de ser exceção, vá fundo, afinal em comunicação ninguém é dono da verdade mesmo.

Agora, falando um pouco do que vi de legal por lá, gosto muito de um trabalho da Lean Mean, que não foi premiado por ter sido avaliado apenas por seu banner (são julgadas peças veiculadas na rede Microsoft). É um curta metragem filmado sem nenhum ator em cena, pra divulgar o vôo Mumbai - LA, veja o case aqui.

O casting é todo feito pela Webcam e depois que os atores são selecionados, gravam as cenas finais também via webcam.

Conversei com o Dave, DC da Lean Mean, sobre como eles desenvolveram a ferramenta que simula um cromaqui na webcam, apagando o fundo e registrando apenas a pessoa. Ele falou que foi um processo de 3 meses, que primeiro a pessoa saía de cena e fotografava o fundo, depois entrava e tirava uma nova foto, o sistema comparava os pixels das duas imagens e gerava um padrão para mapear o shape do ator. Preguiça só de pensar... Mas como era o coração da idéia, eles tiveram que esperar ficar quase perfeito (perfeito é mesmo impossível, ele falou).

Gosto da idéia por ser um jeito novo de pensar, ser colaborativa e democrática, qualquer um com uma webcam poderia atuar no filme.

Gosto também de uma ação que sinaliza pra mim um pouco do futuro da nossa indústria, veja aqui. Ela vai além da publicidade, mesclando conteúdo e serviço em tempo real. É um robô no Messenger criado para divulgar um seriado de muito sucesso entre jovens ingleses, chamado Skins. Você adiciona o seriado como amigo no MSN e começa a receber informações sincronizadas com o programa que está passando na TV, ao vivo.

Durante uma das cenas você recebe o nome da trilha de fundo que está tocando, em outra uma fofoca sobre quantas vezes a cena precisou ser gravada, e no intervalo ainda pode assistir na janela do Messenger a cenas extras, gravadas exclusivamente para a audiência online. Smart! Os caras entenderam como a geração multitask consome conteúdo e acertaram em cheio. Ganhou ouro e, apesar da direção de arte não encantar, seria o meu Grand Prix.

Grand Prix que acabou saindo para essa campanha aqui para um banco, que também é muito bacana, mas na minha opinião, menos surpreendente.

Por fim, vou falar de um trabalho que não foi julgado, mas que me foi mostrado por um dos jurados que conheci lá, Naoki Ito, um japa maluco como todo bom japa maluco. Adoro a direção de arte e acho um exemplo perfeito de uma ação de convergência, pois os caras poderiam ter feito apenas o filme.

Mas foram além e fizeram a ação inteira.

E aí fica tudo muito maior, veja a mobilização das pessoas na internet, a expectativa pelo desfecho, o acompanhamento passo a passo de cada etapa, a transmissão ao vivo o tempo todo, a surpresa final com a revelação do produto. Veja como o raciocínio convergente transforma 30 segundos em 30 dias de cobertura da mídia, multiplicando e potencilizando o alcance da ação. É a convergência potencializando uma boa idéia

Além disso, 3 peças brasileiras foram merecidamente premiadas com prata, bronze e bronze.

É isso, paro por aqui, espero ter dividido alguns aprendizados, e parabenizo a galera da Microsoft pela organização e seriedade do evento, de altíssimo nível. Cheers ; )

domingo, 19 de abril de 2009

A propaganda colaborativa na era da convergência.

O mundo fala em convergência. Os grandes líderes da nossa propaganda falam em convergência. Clientes acham "estrategicamente importante" a convergência. O que significa tudo isso? Que temos caminho aberto para sairmos da teoria para a prática. Afinal é na prática que vão surgir as divergências. E sem divergência, já dizia a dicotomia, não há convergência. Próximo passo? Experimentar.

Experimentar significa arriscar. Significa estar aberto. Aberto a aprender durante a jornada e ajustar a rota conforme o andar da carruagem. E principalmente, resistir à tentação de seguir uma fórmula. Pois as fórmulas inibem a inovação. Ao invés de trilhar um caminho seguro, talvez seja melhor admitir nossa inexperiência desde o início. Assim ficamos livres para experimentar e construir junto com o cliente uma nova referência para o mercado.

Nesse contexto, um dos pilares da convergência é a propaganda colaborativa. É o potencial que uma idéia tem de envolver as pessoas a ponto de fazer com que elas produzam conteúdo para a marca. É o bom e velho boca a boca devidamente tunado pelas ferramentas de redes sociais que, dentre outras coisas, transformaram todo ser humano em autor e produtor de conteúdo.

E sobre propaganda colaborativa, eu queria tentar dividir alguns aprendizados recentes. São 3 premissas que tento seguir ao embarcar numa jornada com proposta colaborativa: relevância, simplicidade e foco.

Relevância significa oferecer ao consumidor uma recompensa suficientemente bacana para a participação dele no processo. Afinal o que você está propondo é que ele dedique parte do tempo da sua preciosa vida trabalhando gratuitamente para promover a sua marca. Se por trás disso não houver uma experiência que transforme ele no maior beneficiado, e não você, ele vai sacar na hora. E pular fora. Vale aqui um parênteses sobre essa recompensa. Prêmios em dinheiro ou privilégios na relação com a marca não são estímulos, são suborno. Você pode fazer e provavelmente vai ter resultados expressivos, mas não estará envolvendo ninguém. Outra forma de recompensa que tem perdido relevância é a exposição na mídia. Coisas como mande sua história que a gente filma e põe na tv dificilmente "comem alguém" nos dias de hoje, apesar de já terem produzido cases importantes anos atrás.

A segunda premissa é a simplicidade. A forma de participação do consumidor na sua campanha tem que ser a mais simples, fácil e rápida possível. Afinal, se você vai terceirizar gratuitamente para o seu consumidor um trabalho que você é pago para fazer, não peça demais. Não peça para ele criar um filme publicitário para a sua marca, isso dá um trabalho imenso e, sem uma estrutura por trás, o resultado final é ruim (e você vai ter que colocá-lo no ar). Peça pra ele escrever uma frase. Pra ele convencer um amigo de algo. Pra mandar uma foto. Simples assim.

Por fim, a terceira premissa é foco. Cuidado pra não se perder no caminho. Procure manter o foco na idéia principal e só utilize as mídias que realmente contribuam para enriquecer a experiência. Esse é um ponto chave da convergência. Não dá mais pra pegar um conceito e repetí-lo em todas as mídias com o mesmo raciocínio (o máximo que você vai conseguir é ser ignorado em 360 graus). Tente fazer apenas o que agrega para a comunicação, da melhor forma possível, trabalhando idéias complementares que, somadas, multiplicam realmente o impacto da sua campanha.

Bom, vamo lá, o post tá longo, cheio de teorias, mas cadê a prática? Acho que tem dois cases que fizemos na DM9 que ajudam a ilustrar tudo isso:

CASE 01: SUNDOWN ENDLESS SUNRISE


Objetivo: Aproximar a marca Sundown do Sol, que durante certo tempo foi abordado como inimigo na comunicação do produto. Envolver os consumidores na criação de uma experiência sensorial coletiva que mostre a positividade na relação com o Sol.

Solução: www.endlesssunrise.com
Seu corpo acorda quimicamente melhor quando é preparado para despertar pelos primeiros raios do Sol. Ver o nascer do Sol é revigorante, mas é uma experiência difícil, pois dura apenas 30 minutos e você tem que acordar cedo. Criamos um screensaver e um website que mostra o dia inteiro o Sol nascendo ao redor do mundo, com fotos enviadas por usuários do Flickr. Democratizamos o nascer do Sol.

Relevância: ver o Sol nascendo o dia inteiro ao redor do mundo é uma experiência inédita e energizante, que traz benefícios diretos para as pessoas que colaborarem com a ação.

Simplicidade: Normalmente quem viaja costuma registrar fotos do Sol nascendo. Para participar, tudo o que as pessoas devem fazer é subir essas fotos no Flickr, principal site de fotos do mundo, com o qual muitas delas já estão acostumadas. Mais simples, impossível.

Foco: num primeiro momento não criamos anúncios, filmes, spots, nem material de pdv. Como o nosso público estava 100% na internet, focamos no screensaver + website + seeding (divulgação em blogs). Concentramos nossos esforços e tornamos cada ponto de contato relevante e bem produzido. Após a consolidação da ação, podemos trabalhar sim uma campanha institucional que potencialize o efeito da ação colaborativa para a marca. Em suma, começar pequeno para terminar grande.


CASE 02: INTEL CORRIDA DE SCREENSAVERS




Objetivo: Comunicar a rapidez de processamento dos processadores Intel e divulgar o VGR, um quiz sobre F1 que simula uma volta ao mundo.



Solução: www.corridamaluca.com.br
Sincronizamos 15 screensavers na agência para criar uma pista de Fórmula 1 virtual, com carros de F1 passando de uma máquina para outra.



Relevância: o público da ação, formado por geeks e amantes de F1 adora desafios insanos. Nesse caso, quanto mais difícil o desafio, mais atraente e maior chance de viralizar a ação. Por isso, ao optarmos por um geek challenge, criamos uma identificação direta com nosso público.

Simplicidade: Após assistir ao vídeo, as pessoas queriam repetir a experiência. Criamos um site simples e didático com 2 jeitos de fazer. Um módulo manual, bem difícil de sincronizar, exatamente como fizemos na agência depois de 3 semanas tentando. E um módulo automático, simples, em que um servidor faz todo o trabalho de sincronia das máquinas. Assim, a experiência estava disponivel para todos, tanto na forma de um desafio difícil como na forma de uma interação simples e acessível. Prova disso foi que recebemos diversos vídeos de pessoas replicando a ação por aí. Um deles, em especial, fiz questão de embedar aqui (abaixo), pois quando molequinhos alugam todas as máquinas de uma lanhouse pra repetir a experiência de uma marca, é sinal que acertamos a mão.



Foco: Priorizamos a internet na comunicação dessa ação. Como o nosso público estava 100% na internet, focamos no vídeo + website + seeding (divulgação em blogs). Concentramos nossos esforços e tornamos cada ponto de contato relevante e bem produzido.

p.s.: Jabá - Essa ação acaba de ser eleita pelo Webby Awards como um dos 5 cases mais inovadores do mundo no ano passado. Agora ela concorre ao primeiro lugar pelo voto popular, qualquer um pode votar, de graça, fazendo um cadastro básico. Se quiser dar aquela forcinha pra gente, clique aqui para acessar o site da votação, depois clique em Interactive Advertising Ballot e vote em Crazy Race na categoria Guerrilla & Innovation. Você também pode votar em um monte de outras categorias, tem muita coisa legal lá, vale a visita anyway.

É isso, fui, valeu por chegar até aqui.
; )

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sábado, 9 de agosto de 2008

Eu acredito em internet

Há um tempo atrás, li no Meio&Mensagem uma coluna do meu amigo Michel Lent com o título “Eu não acredito em internet”. Ele falava, com toda propriedade, da desconfiança dos clientes sobre a efetividade do meio e da importância das métricas e da ROI sobre qualquer ação de internet. Concordo. Concordo tanto que queria tentar complementar.

A internet permite, sim, total mensuração de resultados, com relatórios que, de tão extensos, poderiam ser confundidos com a ficha policial de alguns candidatos à próxima eleição. Indignações político/criminais à parte, o fato é que podemos sim rechear nossos clientes com dados e mais dados em “real time” e ajustar os caminhos criativos ainda em curso. Ponto para a internet, ótimo.

Mas eu acho que nessa virtude do meio digital reside uma armadilha bem perigosa: se não tomarmos cuidado, viramos reféns dos números. E uma vez instaurada a ditadura dos algarismos, a classe que costuma ser mais oprimida é a dos inovadores. Sabe por que? Porque como é que você vai garantir para um cliente que uma ação inovadora, que ninguém nunca fez vai trazer todos os resultados numéricos que ele espera? Vamos ser honestos: não vai.

Outro dia, fui vender uma ação para um cliente diferente de tudo o que já vi. Quando ele me perguntou se ia dar certo, emendei:
- Acho que vai.
- Como assim acho?
- Acho. Não posso prometer.
- Por que não?
- Por que nunca vi nada assim, não tenho um histórico de referências, um case pra te mostrar. Mas que eu acho que vai, acho. E muito.
- Sei, mas você não tem certeza tem?
- Olha... eu tenho uma certeza sim.
- Qual?
- Que é legal pra caramba.
- (pausa)... Concordo, manda orçar.

Sei que esse diálogo é uma exceção. Diretores de marketing são constantemente pressionados a justificar suas decisões com números, benchmarks, estimativas, o que é válido e fundamental para o sucesso de uma estratégia de marca de longo prazo. Mas quando falamos de inovação, da necessidade de surpreender e seduzir pessoas de uma forma única, por que não deixar os números um pouco de lado e fazer coisas que são, além de pertinentes às necessidades das marcas, simplesmente legais?

P.s.: Pergunte ao Bogusky quantas coisas eles fizeram para o Burger King que não deram tanto resultado assim. A resposta vai ser: várias. Mas sem elas, certamente o Subservient Chicken ou o Whooper Freakout, que estouraram no mundo inteiro, também não existiriam.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cannes 2008: menos produto, mais gente.

Estive em Cannes esse ano.
O que me leva ao post post Cannes.
Ei-lo.

São muitas as mudanças.
Muitas as nomenclaturas, tendências,
Web 3.0, enganging adverteinament, collaborative tools, and so on…

Passando tudo isso numa peneira prática, a mim sobra uma única verdade.

Ganhamos mais ferramentas para lidar com gente.

Sim, gente, ser humano, eu, você, o cara que trabalha do seu lado.
Gente comum, em suas mais básicas e inconfessáveis angústias e aspirações.

O Grand Prix de Print fala sobre gente:
Crianças fazendo travessuras politicamente incorretas, alguém aí não se identifica?

HBO Voyeur, GP de Promo e Outdoor fala sobre gente.
Gente que adora bisbilhotar a vida alheia mas paradoxalmente não expõe sua faceta voyeur, até que uma marca vem e o faz.

Uniqlock, GP de Cyber e Titanium, não fala de roupa, não fala de música, não fala de tempo, fala de gente. Da curiosidade humana, que nos faz esperar ansiosamente para assistir a cena que aparecerá daqui a 5 segundos, e a próxima, a próxima, e a próxima.

Halo, GP de Integrated não fala de videogame, não fala de guerra, fala de gente. A campanha confere a personagens de pixels sentimentos e angústias de carne e osso. Humaniza, envolve, seduz. Nos faz acreditar.

Whooper Freakout, não fala de consumo, de hambúrguer.
Fala de gente, de como as pessoas criam vínculos humanos com os produtos que consomem. E o vídeo nada mais é que uma sequência de reações humanas, instintivas, reais e autênticas.

Gorilla, GP de filme, não fala de música, nem de macaco. Fala de gente, da humanização de um primata agindo como um homem. Grande parte do Buzz vem da dúvida, se era 3D, se era um homem fantasiado, enfim, o quão humano aquilo realmente era.

Lead of India, GP de Titanium e Marketing Direto, e o meu favorito, fala sobre gente.
Sobre gente que precisa se sentir parte de um grupo para se reafirmar como gente, como povo, como agente modificador do mundo (dá-lhe psicologia das massas).

Talvez a publicidade reflita um momento de contestação, de auto-afirmação da condição humana frente ao salto tecnológico desproporcional dos últimos anos.
Um macaco é humano? Um herói 3D é humano? Espiar é humano? O mundo é humano?

Divagações à parte, Cannes é motivador, mas é sorrateiro.
Sim, o mapa da mina é simples, temos que falar de gente.
Mas também temos que deixar a gente falar de si mesma.
E é aí que entram as novas ferramentas.
Elas nos dão um poder que a comunicação nunca teve.
Seja o poder de mudar o dia de uma pessoa (Whooper Freakout).
Ou o poder de mudar a história de um país (Índia).


P.s.: Talvez as próximas pastas que eu peça pra ver sejam de antropólogos, ou psicólogos.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O "estranho" e a propaganda: como abrir uma pasta nova no cérebro do consumidor.



Trabalhava na Almap no ano passado quando alguém me mandou esse vídeo pelo MSN. Assisti a primeira vez e falei com um colega: esse filme é foda, queria muito ter feito. Alguém comentou que era divertido, mas não “em termos de propaganda”, que era um lance mais caseiro, mais pra rir e mandar pros outros, não para ser uma referência de propaganda ou ganhar prêmio. Será? Discordei de novo e assisti mais umas 10 vezes antes de mandar pros meus amigos.

Semana passada estava lendo uma matéria do Wilsinho no site do CCSP, sobre o D&AD, e vi que e esse filme tinha entrado no livro do festival, indiscutivelmente um dos mais difíceis do mundo. Achei animal. O filme é simples, despretensioso, estranho mas não é gratuito: ele vende o poder que a dança tem de contagiar as pessoas, o que é totalmente pertinente para o produto – um game de dança.

Bom, mas chega de falar de um filme só. Na verdade usei-o como gancho pra falar de um componente presente em vários outros filmes recentemente premiados: a estranheza. Acho a estranheza um caminho criativo bastante eficaz, cientificamente eficaz, talvez. Por que? Pela forma com que o nosso cérebro processa informações. Diariamente, somos expostos a milhões de estímulos. Cada vez que precisamos processar um novo estímulo, o cérebro procura na memória experiências similares (imagine que nossa memória seja um HD, é como se rolasse um search em todas as pastinhas da sua vida) . Se o cérebro reconhece a informação em uma dessas pastinhas, ela nem chega a ser registrada e você reage de acordo com sua experiência anterior – é por isso que você não pensa em cada movimento que faz para dirigir um carro, suas reações são automatizadas em função de sua experiência anterior.

Por outro lado, se a informação a ser processada é inteiramente nova, você precisa registrá-la como referência para o futuro (criar uma nova pastinha no HD do seu cérebro). Isso faz com que a sua reação a essa informação inédita deixe de ser automatizada e passe a ser única, o que gera uma experiência mental muito mais forte e marcante.

Assim, ao explorarmos em nossa comunicação universos estranhos, desconhecidos, nós automaticamente ganhamos do consumidor uma predisposição inconsciente de se envolver com o enredo. Cria-se uma tensão que, quando aliviada pela apresentação de um produto pertinente, é arquivada no cérebro como uma experiência nova e gratificante (o famoso recall).

Pra resumir, acho que na hora de criar, vale evitar o famoso CTRL+C CTRL+V de nossas experiências e mandar ver um CTRL+N > New Folder, para que a nossa mensagem não se limite a permanecer por alguns segundos (30”?) na memória RAM do consumidor, mas sim que seja armazenada para sempre em seu HD.

Nossa, acho que viajei nesse post. Já foi... O que eu queria dizer é que tenho visto cada vez mais vídeos "estranhos", com idéias simples, às vezes primárias e de produção barata se destacarem nos festivais, o que tem dado uma boa arejada no nosso mundinho publiça. Acho que em algum lugar nos parágrafos acima a coisa deu uma desandada...

Bom, anyway, seguem outros exemplos de vídeos deliciosamente esquisitos (se tiverem mais me mandem que eu publico aqui):







domingo, 2 de dezembro de 2007

Um pouco sobre o Creative Social São Paulo.

Tive a honra de participar na última semana do Creative Social, um encontro que reúne diretores de criação das principais agências interativas o mundo. Puta experiência. Além de poder trocar idéias com os caras que têm feito os melhores trabalhos dos últimos tempos, a edição brasileira preparou uma agenda com apresentações de primeiríssima linha, com a presença do Andrucha Waddington falando de seus filmes e seus trabalhos com publicidade, o Speto defendendo a espontaneidade e integridade no grafite brasileiro, o Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia Social da FGV traçando um panorama dos novos modelos de propagação cultural, a Camila Yahn falando do rejuvenescimento do cenário da moda no Brasil e o Dedé Laurentino, falando das escolhas de sua carreira e detalhando o processo criativo do seu primeiro livro.

Enfim, só gente boa, papo bom e bastante descontração.

Além das palestras informais, na sexta rolaram algumas mesas redondas com os criativos e nosso grupo discutiu sobre como atrair e desenvolver novos talentos para a propaganda interativa. Um dos pontos que eu levantei foi a popularidade que os publicitários tradicionais têm no nosso país, fato que não é tão comum fora daqui. Nomes como Nizan Guanaes, Washington Olivetto, Duda Mendonça são referências comuns inclusive fora do meio publicitário (nossas mães conhecem todos). Existe, portanto, um certo glamour em ser publicitário no Brasil, o que naturalmente atrai talentos para a propaganda tradicional.

Outro ponto que discutimos foi a falta de especialização do sistema educacional. Na maioria dos países representados em nossa mesa de discussão, quando um jovem que cursa publicidade quer aprender a criar para a internet, é lamentavelmente jogado numa sala para aprender Flash e Dreamweaver. Assim, o aprendizado acaba se tornando técnico, superficial, pouco estimulante e incapaz de transmitir todas as possibilidades criativas que a web oferece.

Dessa forma, todo esse déficit educacional, aliado à ausência de glamour do nosso mercado online contribuem para que nossos futuros criativos cheguem ao mercado com a mentalidade míope de querer criar apenas comerciais para a TV ou anúncios para a Veja, esquecendo-se de que dá para escrever roteiros para web (o GP de filmes de Cannes desse ano foi um filme criado para a internet), fazer títulos para banners, textos longos para e-mails, criar sites interativos com vídeo, aplicativos mobile, e muito mais.

Infelizmente, essa galera chega ao mercado sem saber que a comunicação na internet abrange uma infinidade de recursos que extrapolam as fórmulas consagradas do offline, (anúncio com foto + título ou roteiro de 30”com piadinha no final, etc..).

Parênteses. Não estou aqui tentando difamar um ou outro meio. Não há porque polarizar. E nem é uma questão de falar que esse é melhor que aquele, ou aquele outro, mas sim de contestar um modelo mental que atrapalha o desenvolvimento do nosso mercado como um todo, e cujas bases já não mais se sustentam em fatos.

Bom, voltando ao evento, nosso papo lá terminou com a certeza de que temos um longo caminho pela frente. Como figuras representativas da criação interativa, temos a obrigação de levar informação aos jovens para que eles tenham uma visão um pouco mais realista (e por que não glamourosa) do nosso mercado, que é, talvez, mais dinâmico, jovem, descontraído e aberto a inovações.

Nessa caminhada, fiquei sabendo que os suecos estão bem à nossa frente. Como me disse o Bjorn Hoglund, diretor de criação da Daddy de Gothenburgo, na Suécia a publicidade online já está totalmente consolidada. Devido ao sucesso das agências interativas do país, capitaneadas pela Farfar de Estocolmo, hoje em dia a grande maioria dos suecos quer criar para o mercado digital, inclusive muitos profissionais que atuam na propaganda tradicional.

A boa notícia para nós da internet é que as perspectivas são ótimas. As verbas já estão migrando da publicidade tradicional para a publicidade online, principalmente na Inglaterra e USA. Nossos clientes já começam a acordar para o retorno de investir em ações interativas, construindo um diálogo muito mais rico e dinâmico com seus consumidores. E a TV interativa caminha para sacudir de vez essa história toda.

Por isso, aqui vai um conselho. Se você é jovem e pensa em fritar seus neurônios numa carreira criativa, procure pesquisar antes de virar a cara para a publicidade interativa. Converse com as pessoas da web, veja alguns anuários online, pesquise as tendências. Pode acreditar, existe um mundo virtual repleto de oportunidades reais te esperando. Abrace essa oportunidade, sem pré-conceito.

Até porque, particularmente, não acredito muito nessa divisão entre propaganda on e offline.

Mas isso, além de invalidar todo esse artigo que você acabou de ler, mereceria um novo post. E tá tarde...